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29/01/2026

O Xangô de Baker Street

O Xangô de Baker Street
A versão que eu li possui essa capa, lançada em 1997, na 12ª reimpressão. Hoje em dia ainda é fácil de encontrar o "Xangô..." seja em sebos ou em livrarias.

Fala, pessoal, beleza?

Fazia muito tempo que queria ler este livro do Jô Soares, O Xangô de Baker Street. Me lembro vagamente de ter visto um trailer dele durante minha adolescência, mas nunca tive a oportunidade de assistir nem de lê-lo.

Nesse meio tempo, até a leitura deste, li muitos livros do detetive inglês. Conforme o tempo foi passando, fui ficando cada vez mais curioso para saber o que Holmes fazia pelas terras brasileiras no século XIX e como o finado Jô Onze e Meia tinha trabalhado o personagem. Pois bem, a espera acabou. 

Li a obra este mês de janeiro de 2026 e o livro estava à altura das minhas expectativas. 

A história se passava no Rio de Janeiro no ano de 1886. D. Pedro II convoca Sherlock Holmes para ajudar na investigação do sumiço de um valioso violino Stradivarius, a "Ferrari" dos violinos. No entanto, o que era apenas o caso de sumiço de um instrumento da amante de D. Pedro II rapidamente passava a ser também a investigação do primeiro "sirialquiler" da história, termo cunhado por Holmes em terras tupiniquins e adotado mundo afora.

Enquanto lia, me lembrei de que uma vez vi Jô Soares falando que era fã do Século XIX e que tinha nascido na época errada. E durante a leitura, pude atestar que isso era mesmo verdade. O finado Jô misturou com maestria personagens reais e ficcionais em seu romance. Tive que parar algumas vezes para pesquisar quem era real e quem não era, como a atriz francesa Sarah Bernhardt, famosa atriz da época.

Aliás, Sarah não só existiu como ela realmente se apresentou no Rio de Janeiro em 1886.

Sarah Bernhardt

Além de Sarah e Dom Pedro II, outros personagens reais dão as caras na história, de forma mais ativa ou apenas sendo citados brevemente, como Chiquinha Gonzaga, Olavo Bilac, Princesa Isabel, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Tereza Cristina (Imperatriz), Paula Nei (jornalista) e José White (violinista cubano).

Outra curiosidade que eu tinha antes da leitura era saber como Sherlock e Watson conseguiriam se comunicar com os brasileiros no romance. Falariam o tempo todo com intérpretes? Ou apenas falariam com alguns poucos gatos pingados que sabiam o idioma britânico? 

Pois o autor resolveu isso de forma simples: Holmes passou um tempo estudando o veneno de cobras com um especialista português, e assim aprende a falar português... com sotaque de Portugal! Saber o vocábulo tuga em vez do brasileiro, inclusive, é um dos motivos que levam o detetive a não conseguir solucionar os misteriosos assassinatos. Mas vamos a isso depois.

Apesar de Sherlock Holmes ser o protagonista da história, a atmosfera do romance escrito por Jô é diferente das histórias do detetive de Arthur Conan Doyle. O suspense está presente, um certo senso de urgência também, pois o próximo assassinato é sempre apenas uma questão de tempo, porém toda a trama é permeada por muito bom humor, como sempre foi característica da carreira do autor/comediante. Ri alto em várias passagens do livro, coisa raríssima de acontecer comigo em uma leitura.

Ana Candelária
Ana Candelária, affair de Sherlock Holmes. Usei a descrição dela feita no livro e gerei a imagem com o Gemini

Durante suas aventuras pelas terras brasileiras, Holmes experimenta a culinária local, misturando feijoada com vatapá, sobem para Petrópolis, acontece um "duelo" de violinos, visitas pitorescas ao necrotério, atos lascivos em praça pública, uso de cannabis, encontros com o Imperador D. Pedro II, corridas de cavalo no Jockey, a criação da caipirinha, possessão por pomba-gira... enfim, tédio, você não passará lendo este livro.

Além da trama e das piadas, o livro também é uma viagem no tempo. Jô narra as belezas e horrores da corte, como o racismo, a escravidão e a luta pela abolição, constantemente citada por diversos personagens.

Posso destacar aqui que aprendi ao menos duas coisas durante a leitura que ignorava completamente: a existência da Roda dos Expostos, um mecanismo existente na Santa Casa de Misericórdia, onde pessoas poderiam abandonar, anonimamente, bebês indesejados, que depois ficavam aos cuidados de instituições de caridade.

A Roda dos Expostos salvou muitas vidas durante o Brasil Império, tendo sido encerrada apenas em 1950

A segunda coisa, um pouco menos pesada, porém bem curiosa, era a questão dos corpos guardados no necrotério. Naquela época não havia energia elétrica, então como conservavam os cadáveres? Com gelo importado que chegava via navios, enrolado em panos e palha. Você já tinha parado para pensar nisso? Claro, uma grande parte dele derretia na viagem, mas ainda assim chegava o suficiente.

Porém, nem tudo são flores no livro. Achei que tanto Sherlock quanto Watson foram "tirados pra merda" em vários momentos do livro. Ok, na maioria das vezes era para criar uma situação cômica, mas ainda assim incomodou o excesso de vezes em que isso foi feito. Quando Sherlock chegava a alguma conclusão "elementar", algum personagem aleatório contradizia-o, explicando de forma completamente contrária as suas conclusões. 

E essa não é a pior parte. O final é bem ruim, totalmente anticlímax. A cena do assassinato final é bastante forçada, pois um personagem que durante o livro é descrito como muito inteligente e forte é morto de forma brutal, porém sem explicação para como isso aconteceu. Não vou entrar muito em detalhes para não estragar a surpresa de quem ainda não leu, mas faltou um final decente para o livro ganhar uma nota 10 bem grande. Infelizmente, vai ter que se contentar com um 9.

É isso, meus amigos, fica a dica para quem tem curiosidade para ler essa história. Agora, me resta encontrar uma maneira de assistir ao filme lançado em 2001, indisponível em qualquer streaming oficial.

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